Infecções respiratórias severas, como COVID-19 grave e gripe intensa, podem deixar consequências muito além da fase aguda da doença. Evidências científicas recentes sugerem que episódios graves dessas infecções podem provocar alterações duradouras no sistema imunológico dos pulmões, criando um ambiente que favorece o surgimento de câncer de pulmão meses ou até anos depois.
Essa possível ligação foi investigada por cientistas da Universidade da Virgínia. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Cell em 2026, indicando que infecções virais respiratórias severas podem desencadear mudanças biológicas que estimulam o crescimento de tumores pulmonares.
Além disso, o estudo aponta que a vacinação pode reduzir parte desses efeitos, ao impedir que a infecção se torne grave.
Inflamação pulmonar persistente após a infecção
Doenças respiratórias virais estão entre as causas mais comuns de lesões no tecido pulmonar. No entanto, apenas recentemente pesquisadores começaram a investigar como essas lesões podem influenciar o risco de câncer no longo prazo.
Após analisar os efeitos de infecções graves, os cientistas observaram que o sistema imunológico pode permanecer em estado inflamatório prolongado, mesmo depois da recuperação clínica.
Entre as alterações identificadas estão:
- atividade anormal de células de defesa, como neutrófilos e macrófagos
- inflamação persistente no tecido pulmonar
- mudanças nas células epiteliais que revestem os pulmões
- alterações nos alvéolos responsáveis pelas trocas gasosas
Essas mudanças podem transformar o ambiente pulmonar em um cenário pró-tumoral, ou seja, um conjunto de condições que favorecem o crescimento e a progressão de células cancerígenas.
Evidências observadas em modelos experimentais e pacientes
Para compreender melhor essa relação, os pesquisadores utilizaram modelos experimentais em laboratório e também analisaram dados de pacientes que tiveram infecções respiratórias graves.
Nos experimentos com animais, aqueles que enfrentaram infecções pulmonares severas apresentaram maior probabilidade de desenvolver tumores pulmonares posteriormente.
Ao avaliar dados de pessoas hospitalizadas anteriormente com COVID-19, os cientistas encontraram um padrão semelhante. A análise revelou um aumento de cerca de 1,24 vez no risco de diagnóstico de câncer de pulmão nesses indivíduos.
Esse aumento foi observado independentemente do histórico de tabagismo ou da presença de outras doenças, indicando que a própria infecção grave pode desempenhar um papel importante.
Vacinação pode reduzir danos de longo prazo
Apesar das preocupações levantadas pelo estudo, os resultados também apontam um aspecto positivo relacionado à prevenção.
A pesquisa indicou que a vacinação contra vírus respiratórios pode ajudar a evitar as alterações pulmonares associadas ao aumento do risco de câncer. Isso acontece porque as vacinas permitem que o sistema imunológico responda mais rapidamente ao vírus, reduzindo a gravidade da infecção.
Consequentemente, a chance de ocorrer inflamação persistente ou danos celulares duradouros tende a ser menor.
Outro ponto relevante é que infecções leves não apresentaram o mesmo efeito de risco observado em casos graves.
Monitoramento pode ajudar na detecção precoce
As descobertas também levantam uma questão importante para a prática médica. Pessoas que se recuperaram de infecções respiratórias graves, especialmente aquelas que já apresentam fatores de risco, podem se beneficiar de acompanhamento mais cuidadoso da saúde pulmonar.
Entre as estratégias consideradas estão:
- avaliação clínica periódica
- exames de imagem para monitorar os pulmões
- atenção a sintomas respiratórios persistentes
Essas medidas podem facilitar a detecção precoce do câncer de pulmão, o que aumenta significativamente as chances de tratamento eficaz.
Novos caminhos para compreender o câncer pulmonar
Os resultados publicados na revista Cell em 11 de março 2026 ampliam o entendimento científico sobre a interação entre infecções virais, sistema imunológico e desenvolvimento do câncer.
Com milhões de pessoas em todo o mundo tendo enfrentado infecções respiratórias severas nos últimos anos, compreender seus efeitos de longo prazo tornou-se essencial. As descobertas sugerem que prevenir infecções graves e monitorar pacientes após a recuperação pode ser uma estratégia importante para reduzir riscos futuros e melhorar o cuidado com a saúde pulmonar.


